A Sociedade Depressiva
Leonardo Adalberto
Francischelli
Somos tomados por notícias que merecem nossa atenção e reflexão: "Os
antidepressivos estariam levando jovens a cometer suicídio?" Saiu na Veja; o
"suicídio depois do antidepressivo", Em ZH, no caderno Vida.
Esta é a questão do momento, talvez não só referido aos jovens, mas à todas as faixas
etárias.
"O sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob a forma de depressão. Atingido
no corpo e na alma por essa estranha síndrome em que se misturam tristeza e apatia, a
busca de identidade e o culto a si mesmo, o homem deprimido não acredita mais na validade
de nenhuma terapia. No entanto, antes de rejeitar todos os tratamentos, ele busca
desesperadamente vencer o vazio do seu desejo" expressa E. Roudinesco em seu livro
"Por que a Psicanálise?" Lançado na França em 1999.
As chamadas patologias do vazio levaram essa autora a batizar nossa sociedade como "A
sociedade depressiva", opinião compartilhada por outros autores. No século XXI a
dor psíquica veste cinza-depressão, enquanto a Viena de Freud, no século XX, vestia seu
sofrimento da alma com roupas histéricas.
Para nossa sociedade depressiva a industria farmacêutica descobre os antidepressivos de
última geração que têm grande circulação no campo médico e na psiquiatria em
particular. Prozac a fluoxetina seria o primeiro desta série e mais
difundido. São medicamentos que atuam nos chamados neurotransmissores como a Serotonina e
a Noradrenalina.
Essas drogas são portadoras de grandes esperanças. Deposita-se nelas a convicção que
elas transformarão o vazio do homem do nosso tempo.
Na década de 50, quando surgiram os antipsicóticos, o futuro contagiou a psiquiatria com
o novo tratamento da loucura. É verdade que essa terapêutica contribui e, em muito, para
tratarmos o psicótico. Contudo, as expectativas foram maiores que os resultados obtidos.
Na "sociedade depressiva" a presença dos antidepressivos de última geração
anima os terapeutas. A advertência que aparece nas respectivas reportagens nos coloca na
retaguarda quanto ao uso generalizado dessa droga tanto no campo médico como na
psicanálise.
Por outro lado, a própria doença, que se expressa no vazio, leva o doente a migrar de um
tratamento para o outro na busca desesperada de vencer esse vazio mortal.
Nós mesmos, às vezes, migramos de nossas idéias psicanalíticas, para outras formas de
tratamento, incluindo os próprios antidepressivos, combinando-os com psicoterapia. Quem
sabe, às vezes, rápido demais. É que o vazio do outro nos repercute com força que
aderimos a uma via de descarga urgente. Outras porque o imaginário social pensa nos
antidepressivos para a dor cinza da alma.
Entretanto, enquanto persiste a discussão do FAD (Food and Drug Administration) e a
saúde mental, vamos memorizar que os antidepressivos ajudam, contudo, pedem cuidados.
Publicado em 30/05/2004
Leonardo
Adalberto Francischelli - Psicanalista
Membro titular da SBPdePA
Membro pleno do CEP e do NESF
Colaborador do Projeto - Associação Científica de Psicanálise
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