O País da Imaginação
Por Mauro Gaglietti* e Eliane Colussi**
Em Benjamim e Raízes do Brasil, obras de Chico Buarque e de Sérgio
Buarque de Holanda, respectivamente, há a caracterização da ausência de uma finalidade
para a vida e para a história. A passagem do individual ao coletivo, e a sua justa
interpretação, é um tema que, nos livros em foco, questiona a descontinuidade e a
precariedade de certas narrativas históricas, tradicionalmente amparadas numa lógica com
sentido determinado, com finalidade e com certezas previamente estabelecidas. Percebe-se,
assim, que a escrita da história humana tem caráter inconcluso, incerto, quanto ao seu
sentido.
Chico Buarque, em sua obra, apresenta uma configuração do ser humano numa época de
miragens e de protótipos. Verifica-se que a construção da identidade de seu
protagonista é erguida sobre ilusões, fantasias e faíscas imaginárias. Benjamim tem a
sensação de estar sempre sendo filmado. A idéia de tudo ver, com todos os olhos, não
é mais do que uma possibilidade lógica, que no entanto se consome no mesmo tempo em que
se acredita tê-la alcançado, como no instante anterior à morte da personagem narrada na
cena inicial do livro (a narrativa começa pelo fim). A trama, ao se desenrolar sob o
signo da morte, aponta, talvez, para a abolição do futuro, na medida em que não atinge
qualquer finalidade. O que há é a impossibilidade da escrita do futuro, porque o gozo é
constituído por meio do jogo com os resquícios do passado.
Sérgio Buarque de Holanda ressalta, por sua vez, a especificidade temporal da realidade
histórica do Brasil. Reconstrói, por meio da comparação, os aspectos do processo de
formação da sociedade e da mentalidade dos brasileiros em suas mudanças, em seu devir,
libertando-se de esquemas teóricos e de preconceitos. O aventureiro e o trabalhador, o
espanhol e o português, são tipos ideais, que não existem "na realidade", ou
seja, que se explicam nas suas diferenças e oposições, mas que somente puderam existir
depois da análise minuciosa das fontes pelo historiador. Portanto, o "homem
cordial" não existe, sendo apenas a condensação de um núcleo de atitudes
recorrentes, que, reunidas num tipo ideal, permitem compreender uma certa constante na
história brasileira, que é a prevalência do âmbito pessoal sobre o âmbito político,
o qual deveria, por princípio, reger-se impessoalmente. Essa interpretação dos
subterrâneos (raízes) do País aponta para a impossibilidade trágica da formação de
um espaço público no Brasil.
O sentido da revolução brasileira em Sérgio Buarque de Holanda seria uma
racionalização progressiva da sociedade tradicional, dominada por valores afetivos,
familiares. Portanto, uma modernização baseada na separação entre o afetivo/privado e
o racional/público. Assim, a modernização representaria uma mudança de mentalidade e
um estabelecimento de regras universais que atingissem a todos, independentemente da sua
origem familiar e de suas relações pessoais e políticas. Seu desejo é o de uma
organização racional da sociedade, na qual todos possam encontrar o seu lugar e se
expressar, de forma original, segundo regras universais e consensuais (cidadania).
*Mauro Gaglietti é Professor da Universidade de Passo Fundo (UPF). Doutor em
História/PUCRS, Mestre em Ciência Política/UFRGS, Especialista em História/UFSM e
Graduado em Licenciatura em História/UFSM.
** Eliane Colussi é
Coordenadora da Divisão de Pós-Graduação da Universidade de Passo Fundo (UPF) e
Professora da Universidade de Passo Fundo (UPF). Doutora em História/PUCRS.
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