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Chico Buarque & Sérgio Buarque de Holanda:
Intérpretes do Brasil

 







Chico Buarque de Hollanda
- Intérprete do Brasil?
Por Francisco Carlos dos Santos Filho*



Quero deixar-lhes três perguntas que serão o eixo em torno do qual desenvolverei minha abordagem no mini-curso "Sérgio e Chico Buarque de Hollanda - Intérpretes do Brasil".

A primeira pergunta é: O que estariam fazendo dois psicanalistas no meio de historiadores e cientistas políticos que examinam Sérgio Buarque de Hollanda e seu filho Francisco, intérpretes do Brasil? Os nossos queridos amigos historiadores, habituados aos meandros da sociologia política, estão, sem dúvida, no lugar certo e se sentirão em casa ao frisar que não se pode deixar de perceber a envergadura o papel desempenhado por Sérgio Buarque de Hollanda com "Raízes do Brasil" no inventário das origens e da formação étnica e social do povo brasileiro. Autor e obra de referência, ao lado de "Casa grande e senzala" de Gilberto Freire e outros da mesma estatura, Sérgio examina a fundo em "Raízes" a história da civilização brasileira e a maneira como as origens étnicas repercutiram na formação de nossa estrutura social. O terreno, portanto, não poderia ser mais  propício àqueles que se ocupam dos efeitos dos acontecimentos históricos no desenho da geografia social e política de um povo.

E quanto a nós, psicanalistas, estaríamos fora do lugar? Não exatamente. Não trabalhamos do lado dos efeitos, mas no das motivações e, no nosso caso, das motivações singulares e profundas. Elas estão presentes em cada produção do sujeito inserido e determinado pela espessa tessitura da cadeia de significações subjetivas e pelo forno simbólico que a todos constitui e contingecia: o laço social.

Bastaria, para enfrentar essa questão, com evocar o singelo argumnto de que um mesmo objeto pode ser recortado em várias faces, dissecado e observado por diferentes ângulos e com distintas lentes que dele oferecem uma leitura de diferenças potencialmente complementares e enriquecedoras. Ainda mais se o objeto de interesse for de tamanha fecundidade como o são as obras de Chico e Sérgio Buarque de Hollanda. Além disso, é muito confortável saber que podemos aqui lidar mais com Chico Buarque sabendo o quão bem tratado será Sérgio e sua obra, ao encargo de colegas aptos a um exame mais nítido pelo tipo de lentes que são capazes de manejar.

Este mini-curso está dentro da Jornada Nacional de Literatura e destina-se a tratar de uma das obras literárias de Chico, "Benjamin". Esse era o combinado. Mas creio que sigo de perto o exemplo do próprio Chico ao transgredir a regra e lançar a segunda pergunta: será possível pensar o interprete do Brasil que é Chico Buarque Hollanda sem evocar o cancioneiro e o letrista? Não me resta dúvida que foi nessa parte de sua produção - sem com isso desprezar a literária e a dramática, sumamente importantes - que ele deixou, até o presente momento, seu maior legado. Também não duvido em nada que seja essa face aquela pela qual a maioria do povo o conhece. É inimaginável entender esse intérprete do Brasil sem incluir essa faceta. Sinto-me autorizado, e talvez estar trabalhando com Chico me contagie, a dizer que faço isso porque gosto e admiro muito essa parte de sua produção e que não vejo razão para seguir à risca qualquer regra nesse ponto.

Verdade seja dita: ao escolher a obra musical de Chico Buarque de Hollanda não tenho muito trabalho. Trata-se apenas de ir expondo suas letras e extraindo-lhe o sentido que me interessa, deixando claro que o sentido que me interessa está longe de ser o único possível. Sinto-me como aquele está frente uma imensa e apetitosa fruta, situação na qual o instrumento psicanalítico funciona como um canivete que, ao penetrar na polpa farta e macia de tal fruta, dela extrai seu néctar e essência, o sumo e sabor que constituem o melhor de sua madureza singular.

Chico Buarque já teve sua obra esquadrinhada por estudiosos muito mais informados e capazes em crítica musical e história da música. Não vou cair nesse aspecto outra vez, mas apenas apontar como e porque o cancioneiro é um verdadeiro interprete do Brasil. E aqui nesse ponto, vai a terceira pergunta, que traz consigo outras tantas: é certo que Chico é um intérprete do Brasil? Parece-me um pouco egoísta e restritivo, e me pergunto se não seria mais correto atribuir-lhe a condição de intérprete de afetos universais, capazes de serem vividos por pessoas comuns em qualquer lugar do mundo?

Se não for assim, como poderíamos entender sua capacidade de cantar aquilo que habita a alma de tantos seres humanos? A quem de nós ocorreria cantar o problema da submissão e da obediência com a fina ironia de "Mulheres de Atenas?" Quem de nós pensaria em chamar o ressentimento do amor não correspondido de "adorar pelo avesso?" Quem mais recorreria à profunda sutileza de nomear o luto que não encontra elaboração nem saída de "Mortalha do amor?" Essas são questões inevitáveis e centrais para compreender Chico Buarque de Hollanda, intérprete ativo do Brasil, inquieto tradutor de afetos humanos, talentoso artesão na procura da melhor palavra.


*Psicanalista, Mestre em Teoria e Técnica de Investigação do Aparelho Mental pela UCPel, Professor de Psicologia Clínica e Teoria e Técnica de Entrevista do Curso de Psicologia da Universidade de Passo Fundo, fundador e diretor científico do PROJETO - Associação Científica de Psicanálise - Passo Fundo.

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