Ben/ja/mim ... será?
Por Dóris Maria Wittmann dos Santos*
"Tudo se extinguira com a velocidade de uma bala entre a epiderme e o primeiro alvo
letal (aorta, coração, traquéia, bulbo), e naquele instante Benjamim assistiu ao que
já esperava: sua existência projetou-se do início ao fim, tal qual um filme, na venda
dos olhos. Mais rápido do que uma bala, o filme poderia projetar-se uma outra vez por
dentro das suas pálpebras, em marcha à ré, quando a sucessão dos fatos talvez
resultasse mais aceitável. E ainda sobraria um fiapo de tempo para Benjamim rever-se aqui
e acolá em situações que preferiria esquecer, as imagens ricocheteando no bojo de seu
crânio" (Chico Buarque de Hollanda - Benjamim)
Entre a epiderme, exterior, e o coração, interior, jaz a distância, talvez infinita,
dos sentimentos que guiam a existência humana. Chico Buarque, em sua obra, vai desenhando
o perfil de um homem onde a imagem externa e as vivências internas caem dissociadas a
maior parte do tempo. Seria um homem que não vê seus próprios sentimentos? Que
necessita sustentar uma imagem diferente de si mesmo. A oscilação perigosa entre o
amor e o ódio escapa à compreensão daquele que ignora suas paixões e a extensão que
seus atos egoístas podem ter. Digo egoísta no sentido de serem
exatamente guiadas por essas únicas paixões. Seriam olhos que não vêem o que está
dentro e também não podem ver o que está fora, pois que estão vendados? Seria aquele
que somente se depara com a realidade quando jaz destruído por suas próprias mãos? A
imagem de um homem inconsciente e guiado pela culpa que toma contato consigo mesmo quando
já não há tempo a não ser encarnar sua própria e miserável realidade.
Benjamim se presta para analisarmos desde a perspectiva freudiana o modelo da construção
do sonho, dos desejos e da contradição ambivalente entre o amor e o ódio, própria da
essência do humano. Aquele que tortura e maltrata é o mesmo que chora. Que aspectos são
esses da relação de encontro com o outro humano?
É exatamente aí que se encontra a subjetividade, a paixão do filho, Chico Buarque, com
a filosofia do pai, Sérgio, sobre "o homem cordial" - síntese profunda de uma
experiência realmente vivida e apreendida.
Toda uma importante crítica à verdade e às relações sociais se constrói a partir da
noção da gentileza e da afetuosidade como uma capa protetora contra essa mesma verdade,
exatamente a verdade da ambivalência do amor ao próximo. Seria então, em
essência, a cordialidade, uma conduta estruturante das relações sociais onde o outro
é o espelho, e por isso a imagem passa a ser tão importante. Aqui está a
inter-relação entre o psíquico profundo e o social: uma imagem de homem que é
sustentada pelo olhar do outro ou dos outros, do entorno social.
Chico Buarque retrata tão bem tudo o que aprendeu com o pai, legado importante do
aprendiz de uma crítica sensível: Bem/ja/mim oculta um Mau/ja/mim. Essa é a essência
dos sentimentos humanos: a contradição brutal dos nossos nobres ideais.
*Psicóloga, psicanalista, fundadora do PROJETO - Associação Científica de Psicanálise
- Passo Fundo, Candidata da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Porto Alegre.
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